Abre num novo separador

Soberania Digital · 7 min de leitura · Publicado por Sooma

Bruxelas passa a exigir cloud europeia: o que muda para quem compra e quem fornece

A Comissão Europeia aplicou níveis de soberania ao seu próprio concurso de cloud e adjudicou tudo a fornecedores europeus. O que isso mostra sobre os hyperscalers e o que o CADA vai exigir.

Artigo publicado a 19 de Outubro, 2026

Enquanto o Cloud and AI Development Act segue o seu caminho no Parlamento e no Conselho, a Comissão Europeia não esperou: no seu próprio concurso de cloud soberana aplicou uma grelha de níveis de soberania, excluiu quem não atingia o mínimo e adjudicou tudo a fornecedores europeus. O resultado mostra até onde chegam as ofertas «soberanas» dos hyperscalers e o que uma entidade pública europeia pode exigir desde já.

O que já aconteceu

Em abril de 2026 a Comissão dividiu um contrato-quadro de 180 milhões de euros em seis anos, ao qual todas as instituições e agências da UE podem recorrer, por quatro consórcios: Post Telecom com OVHcloud e Clever Cloud, STACKIT (grupo Schwarz), Scaleway (grupo Iliad) e Proximus com S3NS, Clarence e Mistral. Avaliou-os com o seu Cloud Sovereignty Framework, que transforma soberania em oito objetivos mensuráveis e atribui um nível SEAL de 0 a 4: controlo da empresa, localização dos dados, cadeia de abastecimento, abertura tecnológica, segurança e conformidade com o direito da UE. Só era elegível quem atingisse SEAL-2 (soberania dos dados). OVHcloud, STACKIT e Scaleway chegaram a SEAL-3 (resiliência digital). O consórcio que assenta em S3NS, a joint venture da Thales com a Google, ficou em SEAL-2, o mínimo. A Comissão vai aplicar os mesmos critérios aos seus próprios serviços digitais e publicar uma versão atualizada do framework.

O que vem aí

O Cloud and AI Development Act (CADA) vai tornar este tipo de grelha obrigatório para o setor público de todos os Estados-Membros, com quatro níveis de garantia e exigência de nível 2 ou superior nos setores críticos, extensível às empresas abrangidas pela NIS2. Já explicámos os quatro níveis em Bruxelas propõe quatro níveis de soberania digital na contratação pública.

O Public Procurement Act, adotado a 9 de setembro, substitui as diretivas de contratação pública por um regulamento único com preferência europeia em todos os setores: pelo menos 30% da avaliação em critérios não-preço, onde a origem europeia pode contar, e poder da Comissão para fechar concursos a países sem reciprocidade. As plataformas de contratação eletrónica terão de estar estabelecidas no EEE, guardar lá os dados e não ter controlo externo.

Nenhum dos dois está em vigor. O CADA não terá texto final antes de 2027 nem aplicação antes de 2028; o Public Procurement Act não se aplica antes de 2029. Mas um contrato de cloud assinado hoje por quatro anos termina já sob estas regras.

Onde isto coloca Microsoft, Google e Amazon

Os três hyperscalers conseguem cumprir o nível 1: têm filiais europeias e regiões de dados na UE. Mas não é o que vem por omissão. A localização dos dados na UE é uma opção a configurar e a contratar à parte, com um preço acrescido e exclusões, como a telemetria, o suporte e alguns serviços de IA, que continuam a sair da Europa. Garantir sequer o nível 1 obriga o cliente a saber o que pedir e a pagar por isso. O problema começa no nível 2. Enquanto a empresa-mãe estiver sujeita ao CLOUD Act e ao FISA 702, um fornecedor controlado a partir dos Estados Unidos não consegue garantir que nenhum ator estrangeiro acede aos dados ou suspende o serviço. O caso de 2025, em que a conta de email de um procurador do Tribunal Penal Internacional foi suspensa na sequência de sanções norte-americanas, é citado nos trabalhos preparatórios como o cenário que o nível 2 pretende evitar.

A resposta deles é o modelo de fiduciário: a tecnologia americana operada por uma entidade europeia que detém as chaves e o pessoal. S3NS (Thales com Google), Bleu (Orange e Capgemini com Microsoft) e a European Sovereign Cloud da AWS seguem esse caminho. O concurso da Comissão mostrou o limite: o consórcio que usou S3NS ficou em SEAL-2, o mínimo, enquanto os fornecedores nativos europeus chegaram a SEAL-3. O nível 3 do CADA só admite fornecedores controlados por países terceiros se a Comissão reconhecer formalmente a jurisdição e houver salvaguardas demonstradas; o nível 4 não admite exceções.

Onde isto coloca a Sooma

A Sooma é uma empresa europeia, com capital, gestão e equipa na UE, que opera infraestrutura própria desde 2018: servidores exclusivamente na Europa, fora do alcance de leis de países terceiros. Os critérios estruturais do nível 2 e do nível 3 do CADA, estabelecimento e dados na UE, cadeia de subcontratação europeia, ausência de controlo de país terceiro e equipa europeia, são a forma como a Sooma sempre operou. O Sooma Business, com email, drive e chat assentes em software de código aberto, responde ao critério de abertura tecnológica que o framework SEAL valoriza e que impede o bloqueio ao fornecedor.

A tabela seguinte cruza os critérios do CADA e do framework SEAL com o que cada tipo de fornecedor consegue demonstrar hoje.

O que o comprador vai exigir Microsoft, Google, Amazon Sooma
Estabelecimento e controlo na UE Filial europeia, mas controlo final nos EUA; só contornável por modelo fiduciário (S3NS, Bleu, AWS European Sovereign Cloud) Empresa europeia, capital e gestão na UE
Dados, cópias e registos na UE Regiões europeias disponíveis; telemetria e suporte nem sempre confinados à UE Servidores exclusivamente na Europa
Subcontratantes europeus Cadeia global de hardware, software e suporte Centros de dados, conectividade e fornecedores na UE
Imunidade a ordens e sanções de países terceiros Não garantível enquanto a empresa-mãe estiver sujeita ao CLOUD Act e ao FISA 702; o modelo fiduciário ficou em SEAL-2 no concurso da Comissão Sujeita apenas ao direito da UE e dos seus Estados-Membros
Pessoal com acesso privilegiado cidadão da UE (nível 3) Apenas nas ofertas fiduciárias, com perímetro limitado Equipa integralmente na UE
Dados do cliente não usados para treinar IA de países terceiros Depende de cláusulas contratuais; os modelos de IA são operados a partir dos EUA Não há treino de modelos com dados de clientes
Abertura tecnológica e plano de saída em 12 meses Formatos e APIs proprietários; migração complexa Sooma Business em código aberto; formatos abertos e portabilidade

O limite dos hyperscalers não é técnico, é jurídico: por muito que invistam em regiões e parceiros europeus, o controlo final e a exposição ao direito norte-americano não mudam. É exatamente esse o critério que o nível 3 do CADA e o SEAL-3 colocam no centro.

Para as entidades públicas e as empresas de setores críticos na Europa, a mensagem é simples: os fornecedores que vão ser elegíveis em 2028 já existem hoje, e os critérios para os distinguir já estão publicados.

Fontes

Partilhar este artigo

Continuar a ler

Artigos relacionados

Outros textos sobre soberania, prova legal e comunicações empresariais.

O email da empresa. Em Portugal. Protegido pela lei europeia.

60 dias para experimentar, sem compromisso. Migração assistida incluída.

Falar com a equipa

Deixe-nos uma mensagem

Política de privacidade